JPOC - João Paulo Oliveira e Costa

Portugal na História - Uma Identidade - Varia

Preâmbulo

JPOC - Foto de Rui Costa em Churchill, Manitoba, Canadá Em 2006, o meu irmão residia em Londres e decidiu passar as férias no Norte do Canadá participando num programa científico de avaliação do impacto do aquecimento global na fronteira do Ártico. Partiu de Londres no dia 29 de setembro, à noite, num voo para Toronto, a bordo de um Boeing 767 da Air Canada; na metrópole canadiana, tomou novo voo para Winnipeg ainda num avião a jacto (A320) e finalmente empreendeu um derradeiro voo num pequeno avião a hélice (Fairchild 340 da Calm Air) de 40 lugares para Churchill, capital dos ursos polares. Esta era uma pequena cidade de 923 habitantes, segundo o censo de 2006, junto à baía de Hudson, próximo do círculo polar ártico; situa-se numa extremidade da província de Manitoba, a cerca de 1.000 quilómetros de Winipeg, a capital, e cerca de dois terços dos seus poucos habitantes são indígenas americanos. Tinham passado vinte e seis horas. O destino final, o Churchill Northern Studies Centre, está situado a 25 Kms da cidade, mas a viagem em automóvel por uma estrada de terra batida, só estava marcada para o dia 3 de outubro.

Depois do necessário repouso, no dia 1 de outubro, o meu irmão foi passear pela cidadezinha de máquina fotográfica em punho e foi registando imagens desse mundo remoto e pitoresco, até que o seu olhar captou duas bandeiras, que lhe despertaram a atenção, e fotografou-as; ao fazê-lo deu nas vistas e o proprietário interpelou-o em língua inglesa sobre a razão porque estava a fotografar as bandeiras, ao que ele, sorrindo, respondeu ainda em língua inglesa, que uma delas era a bandeira do seu próprio país. Logo se reconheceram felizes como compatriotas, mudaram de língua de comunicação e pouco depois o meu irmão, nas imediações do círculo polar ártico, comia um indiscutível cozido à portuguesa, enquanto no exterior as bandeiras de Portugal e dos Açores continuavam a agitar-se com o vento.

Neste caso, bastou um simples pano colorido com um símbolo para que o meu irmão e um desconhecido (o senhor António, Tony para os amigos) se aproximassem e, após uma brevíssima troca de palavras, passassem a usar o secular código de comunicação específico da sua nação e logo partilhassem uma comida tradicional da sua nação, que a família do senhor António estava a cozinhar para si própria, a dezenas de milhares de quilómetros da sua terra de origem e que quis partilhar imediatamente com esse desconhecido, que afinal era um compatriota, o que os unia por conhecimentos ancestrais comuns, capazes de gerar afinidades instantâneas. Assim, enquanto comiam juntos, e falavam de tantas banalidades incompreensíveis para todos os outros seres humanos que os rodeavam naquela cidadezinha remota, o meu irmão e os seus hóspedes experimentaram uma cumplicidade inesperada que lhes foi proporcionada pela História, que é a base da identidade de todos os seres humanos.

O livro que tem em mãos é precisamente sobre este fenómeno secular que dá pelo nome de Portugal – uma entidade concebida por um conjunto de seres humanos, que gerou uma comunidade e despertou uma identidade, e que é um dos mais antigos estados-nação do mundo contemporâneo.