JPOC - João Paulo Oliveira e Costa

Portugal na História - Uma Identidade

Imagens do livro - Capa

JPOC - Imagens do livro - Capa A Capa

A imagem da capa do livro é um detalhe de um biombo namban. Estes biombos foram produzidos por pintores japoneses no final do século XVI e início do XVII e constituem verdadeiros retratos da presença portuguesa em Nagasaki e, especialmente, dos momentos da chegada da nau do trato. Os seus autores não tinham nenhuma dependência em relação aos mercadores portugueses e aos missionários, pelo que desenharam livremente o que viam e o que mais os impressionava. Podemos, pois, aceitar que se trata de imagens realistas e admitir mesmo que têm um valor muito próximo do de fotografias.

Neste pormenor temos representados oito homens todos vestidos do mesmo modo. As suas roupas e adereços não faziam parte dos hábitos de quotidiano dos japoneses, e como os seus trajes são muito semelhantes, devemos admitir que eram entendidos pelos nipónicos como formando um único grupo – eram os nanbanjin, os bárbaros do Sul, designação dada então aos portugueses.

Ao vermos o conjunto dos oito homens somos levados a ver em primeiro lugar a semelhança, através do seu modo de vestir. No entanto, essa unidade não significa uniformidade, pois os oito homens têm fisionomias que os distinguem etnicamente – três europeus, três asiáticos e dois africanos. Vale a pena insistir que o quadro foi pintado por um japonês que procurava retratar o que via sem quaisquer juízos de valor. Assim, por um lado, distinguiu os dois africanos, cuja cor da pele espantara os nipónicos nos primeiros anos e que ainda aparecem nestes biombos associados a acrobacias aparatosas nas cordas da nau do trato, o que significa que a agilidade dos africanos também impressionou os japoneses. Quando escrevo estas linhas, estou em Zanzibar e voltei a apresentar a imagem durante a minha conferência e um professor emérito tanzaniano realçou, admirado, o convívio sereno e intimista entre os africanos (muito provavelmente escravos) com as outras seis personagens. Quanto aos outros, o pintor distinguiu os adultos dos jovens – os primeiros aparentam terem nascido na Europa, ou pelo menos serem descendentes de um casal europeu, mas os três jovens têm faces asiáticas e são o resultado da ligação dos adultos que os acompanham com mulheres asiáticas.

Foi por isso que escolhi esta imagem para figurar na capa do livro, porque mostra que a identidade portuguesa é uma construção, cujo pilar fundamental não é a etnia. Assim o explico no livro, em primeiro lugar quando enumero todos os povos que contribuíram biológica, linguística, religiosa ou culturalmente para o aparecimento de uma população “portuguesa” a partir do século XII, e depois ao evocar as novas mestiçagens dos últimos seis séculos. Creio, por isso, que este desenho realizado por um pintor japonês é um bom exemplo da singularidade e da complexidade da identidade portuguesa.